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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Linguagem do quotidiano


"Eu falo errado, é… a minha mãe disse que a professora falou que eu preciso aprender a falar direito.

É que eu troco as letras.

É, eu não sei falar, sou burro.”


Clicar para ver Livro

Três fonoaudiólogas que trabalham com crianças, adolescentes e adultos com dificuldades de linguagem.

O discurso dirige-se a professores, dando-lhes instrumentos para a superação de barreiras, possibilitando novos horizontes sociais e psicólogos.

sábado, 17 de julho de 2010

Pedagogia da Autonomia


"Pedagogia da Autonomia" (versão word)
Saberes Necessários à prática educativa

Autor: Paulo Freire

É o tipo de livro necessário a todo educador que se diz voltado para uma relação ensino/aprendizagem dos novos tempos, de interacção e respeito à vida, à comunidade, e amor ao saber, aquele saber construído e transformado pela reflexão.

"Ensinar exige segurança, competência profissional, e generosidade"
"Ensinar não é transferir conhecimento"
"Ensinar exige curiosidade",

Esta obra é um reflexo da sua vivência dedicada à educação. Um livro para todos, não somente professores e professoras, mas fundamental para estes últimos.

Considerações sobre o livro:

O prof. Paulo Freire mostra que ensinar não é transmitir conhecimentos, mas criar as possibilidades para a produção do saber.
Ensinar exige muitos factores, estes são citados de forma clara e conclusiva. Uma das primeiras exigências é a rigorosidade metódica, o Educador norteando-se por este saber deve reforçar a capacidade crítica do educando auxiliando-o a tornar-se criador, investigador, inquieto, rigorosamente curioso, humilde e persistente; O facilitador deve ensinar os conteúdos mas também ensinar a pensar certo.
Os conhecimentos contidos nos livros são muito importantes, porém ter apenas estes saberes e não estar antenado com a realidade do seu mundo, sabendo das necessidades e ocorrências do seu país, da sua cidade, do seu bairro e ainda da sua rua é pensar errado.
O professor precisa pensar certo para só então ensinar a pensar certo.

Ensinar exige pesquisa, o autor deixa claro neste estudo que o ensino sem pesquisa não é ensino, pesquisa e ensino estão intrinsecamente relacionados.
Ensinar exige respeito aos saberes do educando, o facilitador segundo sugestão do autor deve discutir com os alunos a realidade concreta a que se deve associar a disciplina, estabelecendo uma familiaridade entre os saberes curriculares fundamentais e a experiência social de cada um dos aprendizes.
Ensinar exige criticidade, ter uma postura de curiosidade e inquietação indagadora e dicernidora.
Ensinar exige ética, e estética, a prática educativa tem a obrigação moral de ser um testemunho rigoroso de decência e de pureza, o professor não pode estar longe ou fora da ética por ser portador do carácter formador, o ensino dos conteúdos não podem estar alheios a formação moral do educando.
Ensinar exige também a corporeificação das palavras pelo exemplo, quem pensa certo tem consciência que palavras nada valem se não forem seguidas do exemplo. Pensar certo é fazer certo. O clima de quem, pensa certo deve ser o de quem busca a generosidade.
Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. O ser é ofendido e para ele é restrito o direito a democracia, quando acontece qualquer uma das práticas discriminatórias. O repudio de Paulo Freire, por tais acções se faz notável e deve ser a todo custo seguido, o pensar certo exige humildade.
Ensinar exige reflexão crítica, sobre a prática educativa. Como cita o autor, a esta prática docente crítica, implicante do pensar certo envolve movimento dinâmico, dialéctico, entre o fazer e o pensar sobre o fazer. O educando desenvolve o pensar certo em comunhão com o educador, tudo concorrendo para melhorias reais acerca da prática-ensino-aprendizagem. Quando há uma tomada de consciência sobre os factos que envolvem a prática sendo cada educador um ser critico, autónomo dos seus próprios actos, rigoroso metodicamente falando, pesquisador, que respeita os saberes prévios do educando, ético e moral, onde as suas palavras e acções servem como testemunho, que não dá lugar para sentimentos discriminatórios, reflexivo, que assume a si próprio com seus acertos e os seus erros, têm-se a certeza de que tal professor está andando e, pensando e ensinando a pensar certo. Este saberá que ensinar não é transmitir conhecimentos apenas.
O educador deve ter em mente de que é um ser inacabado, não obstante, esta consciência acompanha o ser humano por si só e o leva a um estado reflexivo. Quanto mais cultural é o ser, maior é a sua infância, a necessidade de cuidados especiais se alongam, entende-se que o ser humano é o único animal que continua em companhia dos pais por vinte, trinta ou mais anos. O homem que está cônscio do seu inacabamento e das muitas barreiras e obstáculos a transpor sabe também que estes não são infindos. Para não transgredir os princípios éticos da existência humana o professor não deve ironizar o aluno ou desrespeitar a sua curiosidade nata. Conforme o autor tal transgressão é vista como ruptura com a decência e ordem, toda e qualquer discriminação é imoral.

O bom senso é outro factor que deve permear a prática docente, tendo respeito a autonomia, a dignidade e a identidade do educando, o educador pleno do conhecimento que rege o bom senso, exerce na sala de aula a autoridade a ele concedida porém sem o autoritarismo que se vê em sua essência.
Ensinar exige também humildade e determinação em favor da luta pela classe, tornando-se arte integrante da prática ensino – aprendizagem. Deve-se ter em mente que o educador por ser um formador de pensadores, pode influenciar a favor de mudanças na forma de tratamento aos próprios educadores. As crianças de hoje, serão os futuros políticos, donos de escolas, directores, gestores de amanhã e se estes forem conscientes e agirem com ética e moral, por terem sidos conscientizados pelos seus professores, serão mais zelosos com os benefícios voltados para a educação. O perfil alegre, animador, flexível, lutador e cheio de esperanças, apesar de..., é o que ajuda o exercício da profissão, tornando-a compensadora e desafiadora. Seres convictos de mudança é o que os educadores devem ser.

Ao concluir este trabalho percebe-se que a leitura desta obra se faz necessária para uma boa prática de ensino. Trazendo à tona os velhos conceitos e transformando-os.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Histórias sem aquele era uma vez


No dia da criança foi lançado em Lisboa, com apresentação de Maria Barroso, o livro “Histórias sem aquele era uma vez”, um projecto cujas receitas revertem para a ONG guineense "SOS-Crianças Talibés" que luta contra o tráfico de crianças no continente africano.

Trata-se de de uma iniciativa inédita de solidariedade que junta 40 jornalistas de vários órgãos de comunicação social que reescreveram, para este efeito, contos tradicionais. O livro teve coordenação de Luís Castro e Eduardo Águaboa.

A "SOS-Crianças Talibés" luta contra redes de tráfico que operam a partir da Guiné-Bissau. Entre 2007 e 2009, estimava-se que cerca de 1200 crianças tivessem sido raptadas por estas redes, sendo exploradas sexualmente, sujeitas a trabalhos forçados e obrigadas à mendicidade.

As verbas resultantes da venda do livro “Histórias sem aquele era uma vez” serão aplicadas na reconstrução do centro de acolhimento das crianças que são resgatadas, de forma a garantir um espaço onde podem permanecer até que sejam encontradas as respectivas famílias.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vagabundos de Nós

Diogo (o filho) e Luísa (a mãe) introduzem-nos no seu mundo muito próprio através de uma permuta de confidências.
Diogo nasce. Diogo cresce.
Luísa observa-o, em permanente sobressalto.
Diogo é diferente. Nas atitudes, nos gostos, na sensibilidade, nas amizades que procura. Sente-se perdido. Não pertence a nenhum lugar. Não se «identifica». Luísa apercebe-se do sofrimento e dos permanentes conflitos íntimos do filho. Mas tem relutância em admitir aquilo que, afinal, sabe. Sempre soube. O instinto de protecção que desenvolve cada vez com mais intensidade resulta num mundo a dois, isolado do restante núcleo familiar. Um mundo que ambos partilham e percorrem numa autêntica via dolorosa. No diálogo franco e livre que sempre mantiveram, só tardiamente as palavras cruamente descodificadoras de tanta amargura aconteceram (Mãe, sou homossexual).

O que fazer quando nos sentimos diferentes?

Porque ser diferente não é uma questão de escolha. Vagabundos de Nós aborda o que de melhor e de pior há em cada ser humano, deixando em aberto as pistas para a problemática da condição de não haver escolha.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Violência Familiar

Se durante muito tempo foi possível viver na convicção de ser a família a instituição que por natureza seria o porto seguro de refúgio de qualquer ser humano, hoje, perante a informação que no dia a dia entra nas nossas casas, percebemos que a violência dentro da própria instituição é um facto e, no entanto, muito pouco se tem feito no sentido de a minorar.

Maria Emília Costa e Cidália Duarte (2000)


Cap I - Definição do problema e dificuldades de investigação

O que é a violência parental?
O que é a violência conjugal?

Cap II - Investigação na violência familiar: Uma síntese possível

Teorias centradas nas características das vítimas : das crianças e das mulheres
Padrões de educação da criança e competências parentais
Padrões relacionais no casal
Porque é que algumas mulheres mantêm estas relações?
Afinal, as mulheres também são violentas

Cap III - A intervenção na violência familiar

Dificuldades de avaliação
Intervenção no sistema social
-
Programas de educação parental
- Programas de
educação conjugal
A intervenção junto das vítimas
- Junto das mulheres, dos homens e das crianças
Psicoterapia conjugal
Intervenção junto da família

terça-feira, 11 de maio de 2010

Lições do Abismo

Todas as relações entre pais e filhos têm problemas, todos os filhos em algum momento já acharam que os pais não os compreendiam e todos os filhos já quiseram sair/fugir de casa (ou quase todos), mas há casos mais dramáticos do que outros e este livro mostra-nos isto.

Escrito por um psicoterapeuta o livro fala dos problemas de relacionamentos entre pais e filhos e das rupturas que com isso surgem, Daniel Sampaio conta-nos a história de dois jovens que fogem de casa - os seus sentimentos, as suas emoções e os seus problemas - ao mesmo tempo que nos conta o outro lado, aquele que muitas vezes nos esquecemos que existe, o lado das mães desses dois jovens.
Daniel Sampaio (2002)

"Um dia mandaste um mail:
"És capaz de descobrir uma fonte secreta que faça desaparecer as sombras e tire, para sempre, a sede do nosso amor?"
...
Não te perdoo não teres sido mais clara, não posso aceitar que não tivesses dito como eu te oprimia, como o meu amor obsessivo te cansava e te fazia querer fugir ou estar muito ocupada, como as minhas permanentes combinações te saturavam. Nunca vi um gesto de enfado, uma recusa a um programa, uma alternativa às minhas propostas. Pensava que te conhecia tão bem que quase adivinhava o que pretendias, tudo me parecia fácil na ânsia de estar contigo."

"Estou morto de mais para poder morrer, acreditei ter força suficiente para não me asfixiar, apenas pude suspirar quando quis soltar um grito."

"O tempo passa depressa, o dia esvai-se dentro de mim, os primeiros traços de escuridão de há uns meses ocupam cada vez mais espaço. Na mais profunda solidão espero ser livre, desesperado e abandonado choro, não tenho forças para lutar por muito mais tempo."

"Tenho de tornar claro que não desejo ser preocupação para ninguém, não quero que sofram por minha causa, gostaria apenas de um pouco de calma neste corpo tão cansado."

"Agradeço aos meus pais terem sabido tomar conta do meu corpo. A culpa de o detestar não é da sua responsabilidade. Tudo surgiu de repente."

"Apesar da minha raiva continuo a ser ninguém. Caminho por entre sonhos e procuro a serenidade, busco a ilusão de que este momento vai passar e vou surgir de novo, no espelho, sem vergonha de mim."

"Como uma criança nascida na chuva, condeno-me a ficar para sempre gelado por dentro."

"Oiço-me mas não me escuto."

"Quem sabe a minha queda não me deu forças para continuar, quem sabe se estive no paraíso da solidão ou no limbo que precede a felicidade."

"A minha alma leva-me para demasiado longe."

"Tenho pena que me oiçam gritar e pensem que são suspiros."

"O meu olhar ainda pergunta o porquê do teu sorriso gélido."

"Nem sempre desisti. Durante algum tempo denunciei a minha revolta, gritei liberdade...mas a realidade à minha volta não se alterou."

"Não devo nada a ninguém, lamento apenas que não tenham entendido o abismo em que mergulhei.
Questiono-me sobre se vou ser amado por um dia que seja, se alguém sentirá a minha falta."

"Alguém me pode explicar o fim? Alguém sobrevive à própria morte? Alguém voou até ao infinito? Quero conhecer tudo."

"Não sou ingrato, por isso não quero abandonar de repente quem ainda me abraça, nem sou capaz de submeter alguém a um hipotético caos."

"O meu grito por liberdade não tocou ninguém por dentro."

"Estou demasiado cego e mudo para morrer, demasiado morto para enfrentar a morte. Sou eu a dor, a causa da existência, o ruído do coração a perder-se no meu peito. Mesmo que não possa sair desta imensidão, a memória não se há-de apagar. Morto já devo estar, porque não consigo fazer com que acreditem que escolhi o meu trilho final.
Violento é o meu acordar."

"Talvez uma simples promessa de alguém me convença a ficar aqui. Se a escutar em algum momento, tentarei que a noite não me rasgue o coração."

"Deslizas sem admitir que tens asas para voar."

"Sinto o corpo a decair e a alma a rebentar."

"Desejo a mudança, uma ansiada reacção, um rumo que tarda em definir-se, não posso continuar a esconder o que me rodeia com suspiros incompreensíveis para os outros."

"Sabes bem que dei todo o meu ser, dei tudo de mim, fiz o impossível, que era acreditar no possível, poder amar-te para sempre com todas as minhas forças, esperar um novo dia com a certeza de te encontrar. O silêncio, contudo, tomou conta de mim."

"Como esquecer a promessa desfeita, a mentira, a injúria, a traição, como não lembrar a construção de um amor intenso e partilhado, feito de inquietações e promessas renovadas?"

"Tenho a certeza de que posso desenhar a minha salvação, mas morro em cada vez que acordo."

"Estou só."

"Agora que não te vejo, olho para dentro de mim e é como se encontrasse cicatrizes no nosso amor, pedaços de mim e de ti, dantes ligados, agora sem rumo no meu coração."

"Sinto no peito a dor de um enorme esforço para viver. Vou a caminho de ti e não sei onde estás, procuro-te em cada esquina."

"Vou a caminho de uma solidão sem regresso, onde quer que estejas, ouve o meu grito, escuta a minha voz por um instante."

"Se conseguir adormecer quero-te a meu lado, apesar do que me fizeste sofrer. Perdoo-te, mas não te quero esquecer."

"Sinto-me agora diferente. É como se a doçura que captei em ti, se transformasse num veneno que mata lentamente. Oiço chamar ao longe. Encontro-te e perco-te outra vez. Num ano aconteceu tanta coisa que não me reconheço quando me olho ao espelho, a procurar uma calma que não chega. Em sonhos procuro-te de novo, ao ver-te não te vejo nem te alcanço. Acordo exausta e sozinha, viro-me na cama à procura de um momento de paz."

"O tempo à volta é um fio de dor que procuro atravessar sem olhar para trás."

"Afinal quem sou?"

"Como explicar que queria ser dona do meu destino, sentir-me alguém, poder errar e corrigir, viver?"

"Nesse amanhecer perdi-te e ainda não te encontrei de novo, foi como se uma porta de ferro se tivesse fechado entre nós."

"É mesmo tarde para nos amarmos de novo?"

"Não tenho ninguém a quem anunciar que não durmo."

"Vivo à sombra das sombras, qual a imagem de mim própria?"

"Deixa-me, no entanto, viver na esperança de poder continuar a amar-te, na ilusão de que um dia ouvirás ou lerás o que escrevi. Por agora, é como se me desses um pequeno ribeiro e eu quisesse o mar, como se pretendesse todas as flores do mundo e me entregasses um pedaço de erva."

"A verdadeira loucura é a da dor que não se vê."

"Ando agora à procura de um sol que nunca nascerá, nomes vazios preenchem as minhas memórias."

"Sinto que hoje vivo fechado à volta do medo, rodeado por sombras que não passam."

"Só quem todos os dias vai morrer pode pensar assim."

"Em que momento nos zangámos por dentro?"

"Agora é demasiado tarde para falarmos."

"Não achas que merecemos outra oportunidade?"

"Tudo em mim é dúvida e morte."

"Pergunto a Deus, a um Deus qualquer, se aquela alegria suprema não poderia durar para sempre, porque razão ma deu a conhecer?"

"Alguém se deteve, um instante que fosse, no modo como me poderia sentir? Alguém se interrogou se não seria bom uma conversa comigo pela noite dentro?"

"Necessito de alguém que me ame sem condições, um ombro seguro onde possa encostar a minha cabeça louca e perdida, um colo para me sentar a contar os meus sonhos, uma mão que me ampare e cure as feridas."

"Em que momento perdi a felicidade da minha infância?"

"Estou triste mas mais livre."

"Faço desaparecer o passado da minha cabeça (basta esquecer que te conheço)."

"Basta esquecer que te conheço, não me lembrar de nada que me faça sofrer, perder a memória."

"Estavas perto e longe ao mesmo tempo, num dia quase prometias a lua, no outro tinhas pressa."

"Precisas de ter relações sexuais e não ralações sexuais."

"Quero perdoar e não esquecer de tudo o que não me deste, de tudo o que em ti ainda amo ficou apenas a cor dos teus olhos."

"Nunca mais te quero ver, desaparece, não me olhes."

"Em que momento deixámos de nos olhar? Em que instante permitimos que crescesse este muro que nos separa?"

"Escapas-me.. a pouco e pouco perdi-te."

"Custa-me tanto ver-te desiludido! Só tenho uma desculpa, é a de que nunca falaste comigo sobre a tua ilusão."

"Ter-te perdido será real, se te tenho sempre a meu lado, embora não te possa tocar?"

"Quero estar comigo mas sem me afastar do mundo."

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ninguém Morre Sozinho

António Lobo Antunes :

"Quanto a mim, o principal mérito deste livro reside no facto de, sem nunca abandonar o rigor científico, tocar o leitor pouco habituado a este género de escritos no mais íntimo de si mesmo: a sua adolescência e a sua morte, a sua alegria e a sua dor. Creio firmemente tratar-se de uma das raras obras de cuja leitura se sai diferente: mais abertos a nós próprios e ao que nos rodeia, mais conscientes e serenos acerca da aventura de viver. Porque, em derradeira análise, é somente isto que Daniel Sampaio é: um mestre da vida e da lucidez do amor."

Daniel Sampaio (1991)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Tudo o que temos cá dentro

Retrata um conjunto de consultas de psicoterapia de um jovem que lida pela primeira vez com a horror do suicídio de uma amiga próxima e que tenta ainda compreender as causas de morte do seu avô. Daniel Sampaio conduz-nos para o mundo da Psicologia, dando-nos pormenores de ambiente muito bem conseguidos e aprofundando a história com fragmentos de pensamentos do protagonista e a explicação da jovem que decide pôr termo à vida, através de uma longa carta.

Não se tratando propriamente de um guia para lidar com a morte de quem nos é querido, Daniel Sampaio faz-nos aprofundar o nosso "Eu" e procurar algumas explicações individuais, através da introspecção e do pensamento acerca da inconstância da vida perante a eminência da morte.

"Tudo o que Temos cá Dentro", a meio caminho entre o romance e a descrição de uma psicoterapia, que tem o suicídio como ponto de partida. Temos o relato ficcional que o terapeuta faz das sessões, um monólogo interior do paciente e uma espécie de carta pos-mortem do suicida, uma história envolvendo os vários pontos de vista dos seus protagonistas. Uma leitura fundamental para todos os que se interessam pela adolescência e pelos problemas que lhe vêm associados.

Daniel Sampaio (2000)

"Esqueceste a pouco e pouco o meu amor. Nunca me falaste de ternura. Vi, muitas vezes, o riso na tua boca, mas jamais disseste o teu desejo. E quando o teu corpo nos levava no sonho, como se nos perdêssemos em cada segundo, deixavas-me sozinha na escuridão.

A pouco e pouco te expliquei o meu terror. Não quiseste ouvir-me. E, afinal, o que sentiste? Que fizeste do nosso lugar de amor? O que pretendeste ignorar? Agora é a tua falta que me faz falar. Sombras, frios, barulhos estranhos, invadem-me dia após dia. Oiço os teus passos. Surpreendo-me a escutar o ruído da tua mota.
Nuno, serás capaz de entender o silêncio dos meus gestos? Poderás escutar-me por minutos? (...)

Quando te conheci, senti-me renascer. Gostei do teu olhar de desafio, da intimidade com os teus amigos, do teu à-vontade quando nos tocámos naquela festa, a segurares a porta para que ninguém entrasse, o teu corpo finalmente próximo (há muito te desejava e já o sabias decerto).

Não preciso falar da noite do Meco. Perdemo-nos naquela luz, na cumplicidade dos teus amigos, até na pressa com que devoravas perceves e engolias cervejas. A noite surgiu de repente, com um sabor de despedida que não adivinhava. Sei, no entanto, que me amaste inteiro. Não podes negá-lo. Não o farás e, quando souberes o fim, ficarás mais certo."